segunda-feira, 23 de maio de 2011
Arlindo Cruz novo CD "Batuques e Romances"
Rio - Enquanto caminha, conversa e posa para fotos para a reportagem no Mercadão de Madureira, Arlindo Cruz tem seus passos acompanhado por um punhado de câmeras de celular - são fãs. Alguns se aproximam e pedem para tirar fotos com ele, outros cumprimentam, lembram uma canção sua - entre as quase 600 já gravadas ("Não sei ao certo, na última contagem, há alguns anos, estava em 500", explica Arlindo). Sentado na mesa do bar incrustado entre lojas de artigos para aniversários e aviários, de banjo em punho, ele comanda o coro em "Meu lugar" - a do refrão "Madureira!". Malandro da Piedade, joga em casa. Como em casa estava na noite anterior, a quilômetros dali, quando a canção, o coro e o banjo ecoaram na Nuth Barra, novo pouso de seu pagode. Gravado pelos ultrapopulares Exaltasamba e Sorriso Maroto, pela MPBística Maria Rita e pelos rappers Marcelo D2 e Rappin' Hood, à vontade na Serrinha de seu Império Serrano e no Recreio, onde vive há mais de dez anos, na TV (é visto na Globo cantando o jingle "Globalização", e até pouco tempo atrás estava com Regina Casé no "Esquenta") e nos quintais mais profundos de partido alto do Rio, Arlindo personifica - como talvez apenas Zeca Pagodinho - a carioquice do livre circular entre gêneros, classes e regiões da cidade. "É o meu jeito de ser/ Falar com geral/ E ir a qualquer lugar", sintetizam os versos de Rafael Delgado que ele entoa em "Meu nome é favela", uma das 17 canções de seu novo CD, "Batuques e romances" (Sony) - uma declaração de mestiçagem já no título.
A vocação para circular - e seus efeitos - começou cedo.
- Nasci numa maternidade em Marechal Hermes, minha família morava ali em Abolição, Piedade - lembra o compositor. - As dificuldades, os aumentos do aluguel faziam a gente se mudar. Acabei morando um tempo na Praça Seca, perto de Candeia. Fui me aproximando dele, a gente ia lá filar um almoço, ele gostava de me ver tocar, ainda garoto. Madureira, eu sempre frequentei, apesar de nunca ter morado aqui. Meu tio me levava para um bar onde os compositores do Império se encontravam, Mano Décio, Fuleiro... Rolava um partido, eu era fascinado pelo improviso. Mais tarde, eu e Zeca andávamos de ônibus lá atrás, versando. Nunca fui caloteiro, mas às vezes fazia uns versos para o trocador e ele abria a porta de trás para a gente descer.
No novo disco (que traz 11 músicas assinadas por Arlindo com parceiros como Almir Guineto, Teresa Cristina, Délcio Luiz, Nei Lopes, Fred Camacho e o casseta Helio de La Peña), Zeca participa cantando com ele em "Meu poeta" - Arlindo lembra que o amigo está com ele em todos os seus discos. O outro convidado é Ed Motta - reafirmando a abertura estética, geográfica e filosófica do compositor da Piedade. Eles duetam em "Bancando o durão", dos versos "Andar de marrento/ Olhar de brigão/ Metido a dar fala/ Pagar sugestão".
- A música tem um balanço de música americana que me fez pensar no Ed - explica Arlindo. - Já tinha gravado a base quando o encontrei no aeroporto e o convidei. Depois, fizemos um churrasco com ele, Zeca e Regina Casé no quintal do estúdio do Leandro (Sapucahy, produtor do CD).
A relação de Arlindo com a Zona Sul teve início no Arpoador.
- Eu e meu primo João Batista saíamos dos pagodes do Cacique de Ramos, dos Bacanas de Piedade, já no sábado de manhã e íamos para o Méier pegar o 455, o 456. Dormíamos no caminho até o Arpoador - conta. - Mas não frequentava a Zona Sul fora da praia, eles é que vinham nos nossos sambas. Tinha aquela coisa de, no pagode, comentar: "Essa coroa ali é da Zona Sul".
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